Escrito por Aléxia Dutra, Médica Veterinária pela UFMG, especialista em Dermatologia.

A inflamação de ouvido (otite) é um problema super comum na vida dos nossos amigos de quatro patas. E sabe aquela culpa que muitos tutores sentem, pensando que a culpa é da água que entrou na orelha durante o banho? Pode riscar! Essa ideia de que a água é a vilã principal é, na verdade, um MITO.

A otite em cães é uma síndrome multifatorial, ou seja, resulta da interação complexa de vários fatores. A água não é o agente etiológico, mas sim um fator secundário que, em um ouvido predisposto, pode facilitar a proliferação de microrganismos.

A Complexidade da Otite: Fatores Causais Primários

Para entender a doença, é preciso focar nas causas que iniciam o processo inflamatório do canal auditivo. Quando estas causas primárias estão presentes, o canal se torna vulnerável à infecção. As mais importantes são:

  1. Doenças Alérgicas (O Fator Mais Comum): A otite é, muitas vezes, a manifestação de uma doença sistêmica de hipersensibilidade.
    • Dermatite Atópica Canina (DAC): Alergia a fatores ambientais (pólen, ácaros).
    • Hipersensibilidade Alimentar (Alergia Alimentar): Reação adversa a componentes da dieta.
  2. Parasitas: A infestação por ácaros, como o Otodectes cynotis, provoca intensa inflamação e irritação (otite ceruminosa parasitária).
  3. Corpos Estranhos e Traumas: A presença de sementes, grama, ou a manipulação agressiva do ouvido (uso incorreto de pinças/cotonetes) pode lesar o epitélio e iniciar a inflamação.

A Verdade sobre a Água: Fator Predisponente

A água do banho é classificada como um fator predisponente. Ela não causa a doença, mas sim cria o ambiente ideal para que os microrganismos, que já estão presentes no canal, se multipliquem.

  • Microclima Favorável: A umidade excessiva e prolongada, especialmente em canais auditivos que não foram secos adequadamente após o banho, natação ou chuva, cria um ambiente escuro, quente e saturado.
  • Proliferação de Patógenos: Este microclima altera a barreira protetora do canal e facilita a proliferação de agentes perpetuantes, como a levedura (Malassezia pachydermatis) e bactérias (Staphylococcus e Pseudomonas), que causam o quadro infeccioso propriamente dito.
  • Anatomia da Orelha: A anatomia de certas raças (orelhas longas e pendulares, como Cocker Spaniel e Basset Hound) naturalmente impede a ventilação e favorece a retenção de umidade, intensificando o efeito predisponente da água.

🔑 A Chave para a Prevenção

Portanto, a solução para evitar a otite não é banir o banho, mas sim garantir a correta higienização e investigar a causa subjacente:

  1. Secagem: Utilize algodão hidrofóbico para proteger o canal durante o banho e, após a higienização, seque o conduto auditivo de forma completa e cuidadosa, inclinando a cabeça do animal.
  2. Não Manipulação: Evite introduzir hastes flexíveis ou outros objetos no ouvido do cão, pois isso remove a cera (barreira protetora) e pode causar microtraumas.
  3. Investigação Veterinária: Em casos de otites de repetição (recidivas), é imprescindível buscar a causa primária com um médico-veterinário (dermatologista), pois a otite é frequentemente um sinal clínico de alergia não controlada.

Em resumo, a água pode acender o pavio da crise, mas raramente é a pólvora. O tratamento de sucesso depende de encontrar e controlar a causa verdadeira por trás de tudo.


Está com algum problema na pele do seu pet? Contate uma especialista!

Alexia Dutra – Pós Graduada em Dermatologia Veterinária.

Apaixonada por pets e comprometida com a saúde e o bem-estar animal. Com formação em Medicina Veterinária pela UFMG e Pós-Graduação em Dermatologia Veterinária pela Equalis – SP, ofereço um atendimento de excelência focado nas condições de pele e ouvidos que afetam a qualidade de vida do seu companheiro.

alexiadermatovet@gmail.com

(31) 99350-0246

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