Escrito por Aléxia Dutra, Médica Veterinária pela UFMG, especialista em Dermatologia.
A inflamação de ouvido (otite) é um problema super comum na vida dos nossos amigos de quatro patas. E sabe aquela culpa que muitos tutores sentem, pensando que a culpa é da água que entrou na orelha durante o banho? Pode riscar! Essa ideia de que a água é a vilã principal é, na verdade, um MITO.
A otite em cães é uma síndrome multifatorial, ou seja, resulta da interação complexa de vários fatores. A água não é o agente etiológico, mas sim um fator secundário que, em um ouvido predisposto, pode facilitar a proliferação de microrganismos.

A Complexidade da Otite: Fatores Causais Primários
Para entender a doença, é preciso focar nas causas que iniciam o processo inflamatório do canal auditivo. Quando estas causas primárias estão presentes, o canal se torna vulnerável à infecção. As mais importantes são:
- Doenças Alérgicas (O Fator Mais Comum): A otite é, muitas vezes, a manifestação de uma doença sistêmica de hipersensibilidade.
- Dermatite Atópica Canina (DAC): Alergia a fatores ambientais (pólen, ácaros).
- Hipersensibilidade Alimentar (Alergia Alimentar): Reação adversa a componentes da dieta.
- Parasitas: A infestação por ácaros, como o Otodectes cynotis, provoca intensa inflamação e irritação (otite ceruminosa parasitária).
- Corpos Estranhos e Traumas: A presença de sementes, grama, ou a manipulação agressiva do ouvido (uso incorreto de pinças/cotonetes) pode lesar o epitélio e iniciar a inflamação.
A Verdade sobre a Água: Fator Predisponente
A água do banho é classificada como um fator predisponente. Ela não causa a doença, mas sim cria o ambiente ideal para que os microrganismos, que já estão presentes no canal, se multipliquem.
- Microclima Favorável: A umidade excessiva e prolongada, especialmente em canais auditivos que não foram secos adequadamente após o banho, natação ou chuva, cria um ambiente escuro, quente e saturado.
- Proliferação de Patógenos: Este microclima altera a barreira protetora do canal e facilita a proliferação de agentes perpetuantes, como a levedura (Malassezia pachydermatis) e bactérias (Staphylococcus e Pseudomonas), que causam o quadro infeccioso propriamente dito.
- Anatomia da Orelha: A anatomia de certas raças (orelhas longas e pendulares, como Cocker Spaniel e Basset Hound) naturalmente impede a ventilação e favorece a retenção de umidade, intensificando o efeito predisponente da água.
🔑 A Chave para a Prevenção
Portanto, a solução para evitar a otite não é banir o banho, mas sim garantir a correta higienização e investigar a causa subjacente:
- Secagem: Utilize algodão hidrofóbico para proteger o canal durante o banho e, após a higienização, seque o conduto auditivo de forma completa e cuidadosa, inclinando a cabeça do animal.
- Não Manipulação: Evite introduzir hastes flexíveis ou outros objetos no ouvido do cão, pois isso remove a cera (barreira protetora) e pode causar microtraumas.
- Investigação Veterinária: Em casos de otites de repetição (recidivas), é imprescindível buscar a causa primária com um médico-veterinário (dermatologista), pois a otite é frequentemente um sinal clínico de alergia não controlada.
Em resumo, a água pode acender o pavio da crise, mas raramente é a pólvora. O tratamento de sucesso depende de encontrar e controlar a causa verdadeira por trás de tudo.
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Alexia Dutra – Pós Graduada em Dermatologia Veterinária.
Apaixonada por pets e comprometida com a saúde e o bem-estar animal. Com formação em Medicina Veterinária pela UFMG e Pós-Graduação em Dermatologia Veterinária pela Equalis – SP, ofereço um atendimento de excelência focado nas condições de pele e ouvidos que afetam a qualidade de vida do seu companheiro.

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